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Poesias

João Cabral de Melo Neto no interior de Pernambuco, 1984 - acervo familiar
Adaptada como peça teve sua primeira encenação, autorizada pelo autor, no final da década de 1950, pelo vanguardista grupo Norte Teatro Escola do Pará.[1] Em 1965, Roberto Freire, diretor do teatro TUCA da PUC de São Paulo pediu ao então muito jovem Chico Buarque que musicasse a obra, encenada no palco com trinta estudantes e centenas de outros na retaguarda. Desde então sua presença no teatro brasileiro tem sido constante, tendo a referida peça se tornado um sucesso, inclusive, recebendo premiação num festival universitário de Nancy, na França (le Quatrième Festival Mondial du Théatre Universitaire), onde foi encenada em 25 de abril de 1966, tendo ali sido bem recebida pela crítica, com destaque em publicações no "Le Figaro" e no "Le Monde". Em 1966, a peça encenada pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo - TUCA foi lançada em Long Play (LP) pela gravadora PHILIPS, e distribuído pela Companhia Brasileira de Discos. Cinema e televisão A obra foi parcialmente adaptada ao cinema em 1977, por Zelito Viana com participação de, entre outros José Dumont no papel de Severino, Sebastião Vasconcelos como Mestre Carpina e Tânia Alves.[2] A TV Globo produziu, em 1981, uma versão especial em teleteatro com José Dumont e Elba Ramalho

João Cabral: 105 anos do poeta-engenheiro de Pernambuco

Autor de 'Morte e Vida Severina', o pernambucano revolucionou a poesia com rigor arquitetônico e olhar crítico sobre o Nordeste. Sua obra permanece essencial

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Hoje, comemoramos os 105 anos de nascimento do recifense João Cabral de Melo Neto, um dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. Poeta e diplomata, ele construiu uma carreira marcada pelo rigor técnico e por uma escrita que rompeu com o sentimentalismo romântico. Sua poética, muitas vezes descrita como “seca” e “construtiva”, buscava a precisão e a clareza, características que o aproximavam mais da arquitetura e da engenharia do que da tradição lírica emocional. Não por acaso, ficou conhecido como “o poeta-engenheiro”.

Desde jovem, João Cabral se interessou por literatura, especialmente pela poesia. Apesar de ter tido uma vida repleta de deslocamentos devido à carreira diplomática, nunca deixou de voltar seu olhar para o Nordeste brasileiro, especialmente para as dificuldades de sua terra natal. Essa dualidade – o homem cosmopolita e o poeta ligado às raízes nordestinas – foi um dos principais motores de sua criação literária. A sua estreia na literatura aconteceu com Pedra do Sono (1942), em que já era possível identificar sua busca pela contenção e pela objetividade poética.

Entre suas principais obras, destaca-se Morte e Vida Severina (1955), um auto de natal pernambucano em versos que retrata a saga dos retirantes nordestinos em busca de melhores condições de vida. A peça-poema é considerada uma das mais significativas expressões artísticas sobre o drama da seca e das desigualdades do sertão. O personagem Severino, que representa tantos nordestinos anônimos, tornou-se um símbolo da resistência e do sofrimento de um povo. Publicada originalmente para ser encenada, a obra teve grande sucesso no teatro e recebeu várias adaptações para a televisão e o cinema, sendo amplamente lida e encenada até hoje. A versão de 1965, musicada pelo então jovem Chico Buarque é a mais lembrada de todas.

Outro marco da trajetória literária de João Cabral é O Cão Sem Plumas (1950), um longo poema que narra, em tons épicos e com uma perspectiva crítica, a miséria das populações que vivem às margens do Rio Capibaribe, que nasce no Agreste pernambucano e desemboca na capital Recife. Ao personificar o rio e transformá-lo em um observador e narrador da realidade que o cerca, o autor cria um retrato brutal da desigualdade social. A escolha por uma narrativa visual e cinematográfica transforma o texto em uma verdadeira pintura em movimento.

Além dessas obras, A Educação pela Pedra (1966) é um exemplo de como o poeta elevou objetos e elementos cotidianos a metáforas de aprendizagem e transformação. O livro, vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia, apresenta poemas que refletem sobre o aprendizado constante imposto pela aridez do sertão. A pedra, nesse contexto, deixa de ser apenas um elemento natural e torna-se símbolo do esforço necessário para entender e sobreviver às adversidades da vida.

João Cabral sempre rejeitou o sentimentalismo fácil, preferindo uma abordagem mais racional e “arquitetônica” da poesia. Ele acreditava que o poema não deveria ser uma expressão subjetiva e emotiva, mas uma construção precisa de palavras. Sua escrita reflete influências do concretismo, do surrealismo e da literatura de vanguarda, mas sem perder a conexão com a realidade social. Para ele, a poesia era um espaço de criação intelectual e de crítica às injustiças do mundo.

Apesar de sua abordagem austera, suas obras possuem uma beleza ímpar, construída pelo contraste entre a precisão das palavras e a potência dos temas abordados. Essa dualidade o consagrou como um autor universal, cuja obra transcende barreiras culturais e temporais. Não é à toa que João Cabral foi traduzido para diversas línguas e estudado em universidades ao redor do mundo. Foi o segundo laureado com o Prêmio Camões, em 1990, e eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 15 de agosto de 1968, e empossado em 6 de maio de 1969.

João Cabral na ABL – acervo familiar

Além de ser um poeta notável, João Cabral foi um diplomata de destaque. Atuou em países como Espanha, França e Senegal, onde representou o Brasil com distinção. Essa experiência no exterior influenciou sua escrita, sobretudo pela convivência com outras culturas e movimentos artísticos. Ele manteve uma forte ligação com a Espanha, terra que admirava profundamente e que serviu de cenário para vários de seus poemas, como Sevilha Andando (1989).

A obra de João Cabral também influenciou artistas de outras áreas, como a música e o cinema. Composições de Chico Buarque, como “Funeral de um Lavrador” e “Morte e Vida Severina”, são exemplos de como sua poesia ultrapassou as fronteiras da literatura. O espetáculo musical inspirado em Morte e Vida Severina continua sendo aclamado por críticos e pelo público até hoje.

João Cabral de Melo Neto faleceu em 9 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, deixando um legado literário inestimável. Sua obra permanece atual e relevante, sendo leitura obrigatória para quem deseja compreender a relação entre forma e conteúdo, razão e emoção, palavra e silêncio. Mais do que um poeta, ele foi um arquiteto de emoções humanas, criando edifícios sólidos com versos.

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